quinta-feira, 28 de maio de 2026

Backrooms - Um Não-Lugar

 


Título no Brasil: Backrooms - Um Não-Lugar

Título Original: Backrooms

País; EUA

Ano: 2026

Direção: Kane Parsons 

Roteirista: Roberto Patino 

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass 

Nota: 4/5

Por Amanda Gomes

Existe algo profundamente desconfortável em lugares que parecem familiares demais. Aqueles corredores infinitos de escritório, iluminados por lâmpadas fluorescentes cansadas, onde o silêncio parece ter peso e o ar parece preso no tempo. “Backrooms: Um Não-Lugar” entende perfeitamente esse medo moderno e transforma uma creepypasta da internet em um dos filmes de terror mais inquietantes do ano.

Mesmo sem ser alguém mergulhada no universo de fóruns, analog horror ou teorias infinitas da internet, o filme funciona justamente porque acessa um tipo de ansiedade muito universal: a sensação de estar perdido em espaços que deveriam ser normais. E talvez seja isso que torne tudo tão assustador.

A história acompanha Clark, um homem emocionalmente esgotado, preso em uma vida que claramente já perdeu o sentido há muito tempo. Dono de uma loja de móveis à beira da falência e recém-separado, ele descobre no porão do estabelecimento uma espécie de dimensão impossível: um labirinto infinito de corredores amarelos, salas vazias e ambientes que parecem existir fora da lógica humana. Quando sua terapeuta, Mary Kline, entra nesse universo, o filme mergulha de vez em um terror psicológico sufocante e existencial.

O mais impressionante em “Backrooms” é como o roteiro compreende que o verdadeiro horror não está necessariamente no monstro, mas na antecipação dele. O diretor trabalha o vazio com uma paciência quase cruel. A câmera percorre corredores lentamente, observa portas entreabertas, esquinas escuras e ambientes silenciosos como se estivesse esperando algo aparecer a qualquer momento. E, muitas vezes, nada aparece. Ainda assim, o desconforto permanece.



Existe uma inteligência enorme na maneira como o filme utiliza o som. O zumbido das luzes fluorescentes, ecos metálicos distantes, chiados elétricos e ruídos indefiníveis criam uma atmosfera constante de alerta. É aquele tipo de terror que não depende de jumpscares baratos para funcionar. O medo nasce da sensação de que existe algo errado naquele espaço, mesmo quando não conseguimos identificar exatamente o quê.

Visualmente, o longa também impressiona muito. Os cenários parecem saídos diretamente de pesadelos urbanos: piscinas abandonadas, corredores sem fim, salas vazias decoradas para um Natal estranho e melancólico. Em vários momentos, o filme lembra uma mistura entre “Silent Hill” e algo muito próximo dos pesadelos surreais.

Chiwetel Ejiofor entrega exatamente o peso dramático que o filme precisava para não virar apenas um desfile de corredores assustadores. Existe um cansaço genuíno em sua atuação que ajuda a sustentar o lado emocional da narrativa. Já Renate Reinsve rouba várias cenas com uma presença silenciosa e magnética. Sua personagem carrega uma inquietação constante no olhar, como alguém que percebe cedo demais que certas portas jamais deveriam ser abertas.

Ainda assim, o filme perde parte de sua força quando começa a explicar demais seu próprio mistério. O terceiro ato enfraquece um pouco a potência abstrata construída até então. Algumas revelações visuais e a materialização mais explícita da ameaça diminuem aquele medo do desconhecido que fazia tudo parecer tão perturbador. Quanto mais o filme tenta organizar suas regras, menos assustador ele se torna.

E talvez esse seja justamente o maior problema de transformar uma creepypasta em longa-metragem. O conceito original funciona porque existe muito espaço para imaginação. Quando o terror ganha explicações concretas demais, parte da magia inevitavelmente desaparece.

Mesmo assim, “Backrooms: Um Não-Lugar” continua sendo uma experiência extremamente eficiente. É o tipo de filme que talvez não assuste todo mundo da mesma maneira, mas dificilmente sai da cabeça depois. Principalmente horas mais tarde, quando você estiver sozinho em casa, atravessando um corredor silencioso demais e percebendo que o barulho da lâmpada parece alto pela primeira vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é muito importante para mim! Me diga o que achou dessa postagem e se quiser que eu visite seu blog, informe o abaixo de sua assinatura ;)