quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Menina que via Filmes: Jojo Rabbit [Crítica]


Título Original: Jojo Rabbit
Título no Brasil: jojo Rabbit
País: EUA
Ano: 2020
Roteiro: Taika Waititi
Direção: Taika Waititi
Direção de arte: Ra Vincent
Distribuidora: Fox Film do Brasil
Trilha sonora: Michael Giacchino
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Taika Waititi, Archie Yates, Rebel Wilson, Stephen Merchant, Alfie Allen, Sam Rockwell, Scarlett Johansson
Data de lançamento no Brasil: 6 de fevereiro de 2020
#17
por Larissa Rumiantzeff


Chegou a temporada de premiações, meus caros. Entre Globo de Ouro e Oscar, temos vários candidatos e, pela primeira vez, acho que assisti a quase todos os filmes concorrentes. O difícil é escolher por qual torcer. 
O filme do qual falarei hoje é um desses. Farei o possível para não dar spoilers, mas um ou outro pode escapar acidentalmente. 
Adaptado do livro “Caging Skies”, de Christine Leunens, “JoJo Rabbit” conta a história de Johannes Betzler, um menino alemão com 10 anos no último ano da Segunda Guerra Mundial. Assim como a maioria das crianças alemãs da época, Jojo participa da juventude hitlerista com afinco e empolgação. Seu amigo imaginário é o próprio Adolf Hitler, ou uma versão apatetada dele, visto que é fruto da mente de uma criança. Assim como os demais arianos da época, ele acredita piamente que os judeus são o inimigo, que comem criancinha no almoço, têm chifres e conseguem ler mentes. 

Jojo é criado sozinho pela mãe, Rosie Betzler, uma mulher misteriosa, porém alegre e carinhosa, com um olhar lúdico para a vida. Rosie trava uma luta diária contra o amor cego do filho pelas palavras do Führer (um dos apelidinhos de Hitler, embora eu prefira “enviado do capiroto”).  Segundo o que Jojo sabe, o pai está ausente lutando na guerra. 

Contudo, apesar da empolgação inicial, o menino não tem muita sorte no acampamento da juventude hitlerista. Quando Johannes não consegue matar um coelho sob o comando de um superior, recebe o apelido de Jojo Rabbit. 
Em um dia sozinho em casa, Jojo descobre Elsa, uma menina judia que está morando escondida, e alimentada com os restos do jantar de Rosie. Por um lado, ele não pode denunciar a sua presença por medo de ser envolvido como cúmplice, por outro, a própria mãe não chega a abrir o jogo com ele, por medo do que o menino poderia fazer com o conhecimento e de ter que mandar a menina ir embora. Começa assim uma amizade improvável, nascida da desconfiança mútua. 
Tenho a impressão de que “Jojo Rabbit” é uma combinação bem sucedida de “A menina que roubava livros” e “A vida é bela”, com uma pitada do senso de humor de “Monty Python”. O senso de humor é situacional e as piadas estão no absurdo, como as histórias contadas sobre os judeus ou na repetição do cumprimento nazista. Fica claro que o objeto da sátira é o nazismo e seus seguidores. Felizmente, o roteiro não pesa a mão. Se você não curte comédias, poderá aproveitar o filme pela história. 
O tom humorístico permanece pelos três primeiros atos do longa. Conforme dito por Jojo na primeira fala do filme, ele se tornará um homem. Trata-se de uma jornada de amadurecimento em meio à guerra, e o último ato mostra esse crescimento da forma mais brusca. Foi uma escolha acertada, apesar de ter me deixado arrasada. Pensem em “A culpa é das estrelas” que te faz chorar de rir o tempo todo, pra depois te dar um soco no estômago e fazer você sair do cinema chorando pra valer. 
O longa é americano, com roteiro e direção de Taika Waititi, que também faz o papel de Hitler. O diretor neozelandês tem vários filmes na bagagem, sendo o mais famoso “Thor Ragnarok”. 
A trilha sonora é um espetáculo à parte. Em uma decisão engraçada e genial, músicas inglesas conhecidas, como “Heroes” e “I wanna hold your hand” ganharam versões alemãs. A música dos Beatles inclusive está na abertura, em uma montagem com pessoas fazendo o cumprimento com a mão para cima. 

A escolha do elenco foi impecável. Roman Griffin Davis mereceu o Globo de ouro pela atuação. Alternando entre o humor, a doçura, o conflito e a dor, devia ganhar também o Oscar de melhor ator: não vejo um ator mirim tão forte desde Jacob Tremblay em “O quarto de Jack”. Como eu disse acima, a atuação de Taika foi impagável. A Rosie de Scarlett Johansson também foi muito boa. Outros nomes conhecidos são Sam Rockwell, Alfie Allen, Stephen Merchant e Rebel Wilson, além da Thomasin McKenzie como Elsa. Outra figura que dá vontade de morder é o Yorki, melhor amigo de Jojo interpretado por Archie Yates. Pessoalmente, acho que Thomasin mereceria concorrer ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, e não Scarlett que, por melhor que tenha sido, já concorre como melhor atriz por “História de um casamento”.
“Jojo” é uma história contada do ponto de vista de uma criança, sobre a idealização e os horrores da guerra. Ao humanizar personagens nazistas como o capitão Klenzendorf (Sam Rockwell), somos expostos ao seu lado bom, que, movido pelo amor e pelo afeto, acaba aflorando. Assim como é feito em “A menina que roubava livros”, o nazismo não é relativizado em nenhum momento. Se vemos o lado humano dos alemães que se juntavam à causa iludidos ou forçados pelas circunstâncias, mas que agiam embaixo dos panos tentando mudar a realidade, como Rosie, rimos de personagens unidimensionais como Fräulein Rahm. O próprio Jojo sofre essa transformação, trocando a aversão pelo amor, ao conhecer mais o objeto principal da perseguição nazista. A mensagem é clara: quanto mais ignorantes, mais propensos somos a aceitar cegamente meias verdades e perseguições a bodes expiatórios vendidos por líderes políticos. E quando não conhecemos a história, ela se repete. 
Um aviso: o romance do qual “Jojo” é adaptado, “Caging Skies”, tem poucas semelhanças com o filme. As críticas ao livro são atrozes, apesar do marketing que foi feito em torno dele. Estejam avisados. 
Jojo Rabbit também concorre ao Oscar por melhor roteiro adaptado, melhor figurino, melhor direção de arte e melhor montagem. Aqui entre nós, será um concorrente fortíssimo na maior parte das categorias. 
Como eu disse anteriormente, trata-se de uma comédia dramática, uma sátira antinazista indicada para todos, menos para quem tem dificuldade de interpretar textos. Porém, é extremamente necessária, principalmente nos dias de hoje. 
Só não se esqueçam de levar um pacote de Kleenex. Vocês vão precisar. 
Cinco estrelas, fácil. 



Confira a crítica de Raffa Fustagno com spoilers



5 comentários:

  1. Eu tive que ver esse filme! Essa semana o coração acaba quase que saindo pela boca. Semana de Oscar, de indicações que a gente torce, de filmes que a gente vai ficar puta se ganhar..rs
    Eu nunca cheguei a imaginar que iria sorrir com algum filme sobre Segunda Guerra, mas esse faz a gente olhar de maneira diferente. A inocência de Jojo é linda de ser vista...e apesar de sim, haver momentos doloridos demais, há aqueles que a gente se emociona de um jeito diferente.
    Não penso que vá ganhar alguma estatueta...não sei(eu sempre me engano)
    Mas é um filme recomendado demais!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Não tinha nenhuma vontade de ver esse filme, pois recebi um único comentário que me fez pegar ranço: "O menino gosta do Hitler, é legal!" vindo de uma pessoa, que não sei bem o que pensa sobre o nazismo. Mas lendo sua resenha, vejo que é uma sátira antinazismo, então já me anima, rs. Fiquei curiosa e pretendo assistir tbm!

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  3. Pessoa desequilibrada essa kkkk o hitler do menino é uma versão imaginada por uma criança q n sabe o q é o nazismo.

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  4. Quando vi o trailer desse filme, eu fiquei curiosa para assistir, mas bem apreensiva de como iriam retratar o nazismo, mas vejo que se saíram bem, adorei a resenha e tenho visto elogios ao filme por aí, quero assistir!!

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