quarta-feira, 19 de abril de 2023

O desânimo que dá ser escritora no Brasil

 















Não é surpresa para ninguém que me acompanhe que nunca tive sonho de ser escritora. O máximo que posso dizer que já tive foi uma vontade lá atrás quando fazia faculdade de Jornalismo de escrever livros reportagens, tipo Daniela Arbex ( que aliás faz aniversário hoje enquanto escrevo esse artigo). 

Só que quando coloquei esse blog no ar, em agosto de 2010, muita coisa aconteceu, algumas inesquecíveis, outras nem tanto. Passei a fazer algo que sempre tive muita vontade: entrevistas  com escritores, saber o que e como era seu processo de criação e incentivar novos leitores e contadores de histórias. Em 2011 eu comecei a fazer eventos e em 2012 passei a entrevistar escritores e profissionais do mundo do livro.

Quando o evento da Menina surgiu em 2014, muitos escritores independentes participaram dele. E a plateia - e eu mesma - sempre se assustava quando um deles dizia que vivia exclusivamente da Amazon. 

Era comum escutar deles "eu ganho no mínimo 5 mil reais por mês e não saio de casa", outros chegavam a falar em cifras maiores. Naquele tempo, com um emprego excelente, em uma empresa que me dava do bom e do melhor, eu enchia a boca para dizer que "faço tudo por amor, jamais ganharia dinheiro com isso". Mas eu nunca tinha sido escritora, e a crise viria somente em 2015 quando tentei mudar de ramo ( trabalho em RH há muitos anos) e ir para o Marketing de editoras como vi algumas conhecidas trilhando esse caminho que parecia ser de sucesso, mas tudo que ouvi foram "desculpas" ou "me manda seu currículo "e nada de fato aconteceu.

Passado um tempo, já de volta ao mercado de Recursos Humanos e com um salário bacana - foram apenas 4 meses entre um emprego e outro - eu recebi um convite para escrever O livro da Menina ( não vou repetir o que já estão cansados de saber). No dia que assinei o contrato eu tinha muitas ingenuidades dentro de mim ainda, mas elas foram morrendo aos poucos, cito as principais abaixo:

  • Nem todo mundo que te acompanha nas redes sociais ou vai aos seus eventos virará seu leitor. E isso não é somente por falta de grana ( o que é completamente ok!) mas porque as pessoas podem não gostar da sua escrita ou podem ainda não serem leitores do gênero que você escreve
  • Como falo muito de cinema na internet ( e nos últimos 3 anos de novelas turcas) essas pessoas sequer são leitoras. Ou seja, elas não consumirão seu trabalho com escritora. É preciso aceitar.
  • As pessoas pedem apoio, mas não apoiam. Cruel mas real. Por anos eu apoiei pessoas que não tinham sido publicadas, que não tinham conhecimento de ninguém de mercado editorial, e eu fazia porque que gostava, a máxima de que devemos fazer sem esperar nada em troca é uma realidade. Mas não vou dizer que não machucou quando vi pessoas ignorando meus livros lançados e eu tinha todos dela na minha estante. E estou falando de gente "comum" e não de pessoas do nível de uma Thalita Rebouças ( que  essa linda merece todos os louros porque divulga sempre meus livros em seus storys)























De lá para cá muita coisa mudou na minha vida. Foram muitas histórias lançadas, e muitas esperanças frustradas. Quando Meu Crush de Nova York esgotou na Bienal do Livro de 2019 no Rio de Janeiro eu achei que após a feira se espalharia, mas aos poucos foi morrendo na praia, ou seja, ele só existia dentro da bolha de pessoas que me acompanham e mais meia dúzia que me conheceu no evento.
As avaliações ajudam muito. As resenhas em redes sociais. O não esquecer do livro precisa ser constante, porque precisamos lembrar que ele compete com outros milhares lançados do mesmo gênero, então o que diferencia o seu dos demais?
Naquele mesmo ano eu fui ao show de Sandy e Junior e por coincidência tinha lançado Esse Turu Turu. Mas amores, o flop veio bonito. Na minha cabeça de sonhadora estava tudo certo para o livro bombar, mas esqueci a realidade e só criei expectativas.
Mandei fazer 500 cards do livro e passei boa parte do show no imenso Parque Olímpico no Rio de Janeiro distribuindo - na verdade meu marido porque eu estava recém operada - achei que com essa ação ganharia alguns leitores. Bom, mais um engano, porque vi vários cards jogados no chão, o que me deixou bem para baixo o resto da noite, e o aumento de venda dos livros foi quase zero. 
Para terem ideia por ser uma editora pequena sem distribuição nacional - dessas que você encontra em qualquer livraria que entre - eu vendi enquanto ele estava na editora a quantidade de 154 livros! Esse Turu Turu esteve na editora de agosto de 2019 a maio de 2021. Em junho de 2021 eu lancei com uma nova capa em e-book na Amazon o mesmo livro. Até o momento dessa publicação com o e-book custando 4 reais eu tive 18 compradores e 1572 baixaram grátis. Hoje essa história está fora do Kindle Unlimited por também estar disponível no Skeelo.






















Mas foi um ano antes de colocar Esse Turu Turu de forma independente na Amazon que tive minha primeira experiência com livro independente por lá. Lancei com as meninas da Increasy o Palácio de Areia, apesar de ser meu livro mais mal avaliado, é o livro com mais leituras e mais avaliações, além de ter pago seu investimento sozinho ( coisa que até o momento só ele e Minha Novela Turca 1 conseguiram). 
Inventei de fazer em formato físico mas por causa de erros de revisão eu acabei ficando com uma pequena quantidade em casa, vendendo ou sorteando os exemplares dele e não pretendo fazer uma nova remessa.

Acima vocês conferem os números dele até o momento. 
Foi um livro em conta para fazer o e-book ( gastei cerca de 200 reais porque rachamos o total entre todas) e na Amazon somente com a entrada dele no Prime Reading eu ganhei esse valor ( até o momento é meu único livro convidado para o programa).
























Outra coisa que aprendi é que ao lançar Blogueiras que era um livro independente de 2017 eu vi todas as autoras divulgando muito. Elas postavam incansavelmente e eu me animei muito com aquilo. Imaginei que todos os projetos em conjunto teriam essa dinâmica. Na minha cabeça todas as minhas histórias são importantes, então porque divulgar mais um livro solo do que um livro em conjunto? Se eu me coloquei no projeto, porque não dar valor a ele?
O ser humano nem sempre é fácil de entender, então muitas das vezes as expectativas criadas quando fui chamada para algum projeto em conjunto foram se esvaindo conforme o livro foi lançado e nem todo mundo se empenhou da mesma maneira. Em todos os projetos pós blogueiras eu trabalhei com pessoas que tinham mais seguidores ou menos do que eu, mas não foi uma receita de bolo. 
Eu sempre estive disponível a divulgar e gastei com brindes - esse é mais um ponto importante que comentarei mais abaixo - mas nem sempre todas as autoras agiram com o mesmo afinco em divulgar ( pelo menos).
Depois imaginei que meus livros não vendiam tanto porque não tinham distribuição nacional,  e em 2020 veio um convite no meio da pandemia que achei que era um sonho. Mas...não querendo cuspir no prato que ainda como, segue o que aprendi. 
























Passado 3 anos da primeira publicação na Amazon, eu olhei o quanto tinha recebido e o valor era para fazer qualquer um desistir, ele segue abaixo.









Sim, esse valor acima é somente o que recebi dos 7 livros que lancei na Amazon nesses 3 anos. Minha última publicação lá - Nós Sempre Teremos Atlanta - teve somente 7 unidades vendidas desde o lançamento em 3 de abril. O valor ganho até o momento, nem de longe cobrirá a diagramação que custou quase 150 reais. E a capa que foi paga um tempo antes que sempre fica em torno de 60 a 150 reais ( depende muito, e olha que compro sempre com profissionais que não cobram super caro).
Dito isso, acreditei de verdade que publicar um livro por uma editora grande, com distribuição nacional iria ser "um divisor de águas", e isso aconteceu em julho de 2022. A alegria em ver meu livrinho com mais outras 2 escritoras é indescritível, sou muito grata por tudo, mas caí do cavalo por sonhar muito alto.
Primeiro que achei que seria um exemplar disponível em todo e qualquer lugar, e não é verdade. Já entrei em muitas livrarias que nunca sequer o receberam. Algumas nunca o expuseram em destaque, então aquele sonho do cliente entrar na livraria, ver o livro, pegar e querer, só acontece se o leitor já conhecer uma de nós três. 
Também imaginei muitas coisas que não aconteceram, vamos a elas:
  • Sonhei com uma tour por algumas cidades com as 3 autoras. Mas isso não rolou. Teve apenas um lançamento em SP que eu já estaria lá devido a Bienal do Livro e as outras 2 autoras moram na cidade
  • Resolvi fazer uma campanha que já era um sucesso com outras escritoras. Eu doaria 50 exemplares para quem se identificasse como pardo/negro (minha protagonista é negra) ou para quem se comprometesse ema avaliar na Amazon ou no Skoob. Dos 50 livros enviados apenas 8 pessoas cumpriram o combinado. Muitas nem mostraram que receberam, outras sequer me responderam depois do envio. Foi uma ação que nunca mais pretendo fazer igual
Por isso que toda vez que eu vejo as pessoas baixando PDF, dizendo que só leem livro estrangeiro, ou vindo em meu direct pedir algo ( ou me marcando em promoções que sequer me interessam) eu fico pensando o nível de paciência que é necessário ter nesses momentos para não despejar toda a frustração que tenho com a escrita.
Não, eu nunca sonhei em ficar rica. O mínimo que eu desejo é que o trabalho que faço seja pelo menos coberto com os gastos que tenho publicando histórias.
Tem hora que cansa tirar de todos os lugares e não ter retorno.
São quase 8 anos nessa estrada onde o que já ganhei de direitos autorais é muito mais baixo do que o já tirei de link patrocinado da Amazon ( comissão)
Essa semana postaram esse tuíte



























É uma miséria. É muito pouco! Mas mesmo assim as pessoas acham que livro não deve ser pago. Digo isso para quem faz minha capa e diagramação?
E o que acho pior em tudo isso são as desculpas do "não tenho dinheiro" quando esses mesmos autores colocam várias vezes por anos os títulos de seus e-books de graça! NO meu caso eu faço sorteios de meus livros em TODAS as lives que faço!
Mas enfim.
Quero muito agradecer quem tem me apoiado nesses anos. Quem comprou meu último livro. Quem leu pelo KDP. Quem avaliou. Muito, muito obrigada! 

* Percebi que esqueci de falar sobre os brindes. bom, eu sempre amei fazer sorteios e entregar brindes. Sejam em eventos, sejam em avaliações ou em tardes de autógrafos.
Na ponta do lápis o que aprendi foi:
  • Quando não faço os brindes, não vendo quase nada. Em Bienais ele é um chamariz importante, seja colocado na mesa de autógrafos, seja quando entrego quando a pessoa está em dúvida se vai comprar meu livro ou não. Já vendi muito exemplar por causa deles. Não vou negar.
  • Em avaliações, é bem óbvio que quando não faço nenhuma ação tenho no máximo 10 avaliações, quando faço elas passam para umas 30 ou 40. Ou seja, é claro que influencia a pessoa poder avaliar
  • Os brindes são caros. Cards, marcadores...tudo é caro. Tudo fica ainda mais caro se compararmos com o valor que receberemos de direito autoral dos livros. Até hoje nenhum livro meu - seja de editora ou independente - cobriu os brindes que faço. 

8 comentários:

  1. Já tem um tempo, eu seguia um autor nacional no Insta. Não tinha grana nenhuma e os livros dele custavam em torno de 50 reais cada um. Um gênero que amo, terror..e nunca pude comprar um livro dele. Quando consegui ganhar o primeiro dele num sorteio que era um vale de 50 reais, foi um presente e tanto e me apaixonei mais ainda. Aí passei a divulgar o nome dele pra todo lado e ele me ofereceu um de seus livros. Queria meu endereço pra me mandar um livro. Não dei e disse a ele: eu sigo uma autora nacional que amo e sei o quanto ela sofre para pagar cada um de seus trabalhos. Não é justo que você me mande sem eu pagar por isso ou eu ter ganhado simplesmente num sorteio.
    Raffa, eu sempre estarei do seu lado. Hoje em dia, posso pagar as vezes e pago com todo amor do mundo, não só por você ser minha amiga, mas por ser uma autora que escreve e eu amo isso!!!!
    Nunca li pdf e nem lerei(meus zóiu não deixa rs) e acho que nem faria(tá, filmes é outra história)
    Mas não desista..você nasceu para escrever) só isso!!!!
    Beijo

    Angela Cunha

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    1. Minha querida, ter você por aqui e lendo minhas histórias é sempre um presente. Obrigada pelo apoio e pela amizade. Um beijo imenso

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  2. Já estou bastante tempo por aqui e conheço um pouco de sua caminhada como autora, infelizmente nem sempre todo o trabalho e dedicação se manifesta nós números, se fosse proporcionar você já estaria vivendo apenas de livros, mas é o que você disse, não se pode esperar reciprocidade e nem todo o público vai consumir tudo que é produzido.
    Fora isso, temos aquilo tudo que sempre vemos no TT, pirataria, a preferência por livros estrangeiros, o preço dos livros, os pagamentos ruins...
    Continuamos aqui apoiando e torcendo sempre por você

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    1. Jess, agradeço diariamente por ter pessoas como vc me acompanhando e apoiando. Eu já teria desistido há tempos se não fosse pelo carinho de vocês. Muito obrigada de verdade, por TUDO!

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  3. É uma luta árdua, cansativa e deveras triste mas ainda assim acredito que valha a pena.
    Como não leio digital (não gosto, da tonteira e não tenho o cartão de crédito para assinar o KU), sempre fico na expectativa pelos seus livros físicos.
    Eu sou sua fã e md considero sua amiga e gêmea rsrsrs.
    Toda vez que nos igs e blogs literários pedem indicações de autores nacionais, indico você e seus livros. É pouco mas é de coração e torço que muitas pessoas se interessem por seus livros

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    1. Oi, sua linda! Muito obrigada pelo carinho gêmea! Eu até pensei em fazer mais uma história para somar com essa para poder fazer físico mas a venda do e-book me desanimou muito. Mas tem outras coisas afetando minha animação rs. Vamos ver se dias melhores virão :) bjs

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  4. Olá Raffa
    Já tinha um pequeno conhecimento dessa dificuldade dos autores nacionais em publicarem seus livros no Brasil mas não sabia que era assim .Eu pergunto o porquê que a editora que pública os livros não fazem uma ampla divulgação em livros,nas livrarias Acho que seria importante as editoras nacionais valorizarem os autores nacionais.Não leio PDF e esse seu post me alertou sobre a importância de que nós leitores também podemos te ajudar ajudando na divulgação.Vou indicar os seus livros sempre que possível e desejo que você não desista do seu dom ,que é construir histórias.A estrada é ardua,sei disso agora, mas desejo de coração que esse cenário mude em um futuro próximo.

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  5. Corrigindo meu comentário" Ampla divulgação em lives"

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