Título no Brasil: O Afinador
Título Original: Tuner
País EUA
Ano: 2026
Direção: Daniel Roher
Roteirista: Daniel Roher, Robert Ramsey
Elenco: Leo Woodall, Dustin Hoffman, Havana Rose Liu
Nota: 3,5/5,0
Por Amanda Gomes
Existe um tipo de filme que dificilmente vira fenômeno de bilheteria, mas que encontra seu público justamente por apostar em histórias menores, mais intimistas e guiadas pelos personagens. “O Afinador” é exatamente esse tipo de obra.
A trama acompanha Niki, um jovem afinador de pianos que possui ouvido absoluto, mas vive com hiperacusia, uma condição que torna sons altos dolorosos e transforma o simples ato de atravessar uma rua movimentada em um desafio diário.
Depois de ver o sonho de seguir carreira como pianista ruir por causa dessa sensibilidade extrema, Niki encontra uma nova forma de usar seu talento: criminosos descobrem que sua audição excepcional pode ajudá-los a abrir cofres com precisão quase cirúrgica. O que começa como uma solução para problemas financeiros rapidamente o coloca em uma espiral de dilemas morais, colocando em risco sua segurança, seu relacionamento com Ruthie e a relação com Harry, seu mentor e figura paterna.
O que mais me chamou atenção em “O Afinador” foi a forma como o filme utiliza o som para contar a história. A sonoplastia deixa de ser apenas um elemento técnico e se transforma em parte da experiência emocional do espectador. Os ruídos caóticos das ruas, o silêncio quase sufocante durante os assaltos e a maneira como somos colocados dentro da percepção de Niki ajudam a construir uma tensão constante sem a necessidade de grandes explosões ou reviravoltas mirabolantes.
Leo Woodall entrega uma atuação bastante contida, mas muito eficiente. É fácil entender a frustração de alguém que teve seu maior talento transformado justamente naquilo que o afastou do futuro que imaginava para si. Dustin Hoffman, mesmo com menos tempo de tela, traz carisma e afeto ao papel de mentor, enquanto Havana Rose Liu contribui para que o protagonista tenha uma dimensão mais humana para além do suspense.
O filme também resgata uma atmosfera que lembra os thrillers dos anos 70: menos interessados em ação desenfreada e mais focados em personagens imperfeitos tomando decisões questionáveis. Não existe glamour na criminalidade apresentada aqui. Pelo contrário. O roteiro reforça constantemente que, mesmo quando acreditamos estar fazendo algo pelas razões certas, ainda precisamos lidar com as consequências das nossas escolhas.
Talvez “O Afinador” não tenha a grandiosidade das grandes produções que dominam os cinemas atualmente, e justamente por isso ele se destaca. É um suspense sóbrio, elegante e feito com paciência, que confia mais na construção da tensão do que no espetáculo.
Saí da sessão com a sensação de ter descoberto uma pequena joia escondida. Desses filmes que talvez passem despercebidos pelo grande público, mas que encontram força justamente na delicadeza com que contam suas histórias. “O Afinador” não reinventa o gênero, mas prova que ainda existe espaço para thrillers inteligentes, humanos e capazes de nos prender até a última nota.


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