Título no Brasil: (Des)controle
Ano: 2026
Direção: Rosane Svartman, Carol Minem
Elenco: Carolina Dickman, Caco Ciocler, Júlia Rabello
Nota: 5/5
Por Amanda Gomes
Todo mundo lembra daquela cena em que, no centro da tela, Carolina Dieckmann cortou os cabelos em “Laços de Família”. O momento em que Camila enfrenta o diagnóstico de leucemia virou um marco da dramaturgia brasileira e também da carreira da atriz. Desde então, Carol acumulou novelas, séries e filmes, mas poucas vezes esteve tão visceral quanto agora em “(Des)controle”.
Aqui, Dieckmann vive Kátia Klein, uma escritora de livros infantis bem-sucedida, mãe de dois meninos e sóbria há 15 anos. À primeira vista, sua vida parece sob controle: carreira sólida, família estruturada, reconhecimento profissional. Mas o filme faz questão de mostrar o que existe por trás dessa imagem organizada e é aí que tudo começa a ruir. Kátia é a engrenagem invisível que mantém a casa funcionando: lembra prazos, administra a rotina dos filhos, organiza eventos importantes e ainda tenta cumprir o prazo de entrega de um novo livro. Enquanto isso, o marido, Zeca, pratica ioga e sugere que ela “precisa relaxar”.
A pressão é constante, silenciosa e esmagadora. O celular não para de apitar, os compromissos se acumulam, a criatividade trava. Quando o primeiro gole surge como uma tentativa inocente (e ilusória) de destravar a escrita, o que se inicia é uma espiral perigosa de recaída e autossabotagem. “(Des)controle” é cruelmente honesto ao mostrar que o alcoolismo não nasce do nada, ele surge como refúgio para uma mente exausta, sobrecarregada e sem espaço para falhar.
Carolina Dieckmann entrega aqui uma das atuações mais fortes de sua carreira. Ela foge completamente da caricatura da “alcoolista de cinema” e constrói Kátia nos detalhes: no tique nervoso das mãos, no olhar sempre à beira do colapso, na lucidez dolorosa de quem sabe exatamente o que está fazendo consigo mesma e mesmo assim não consegue parar. É impossível, especialmente para mulheres adultas, não se identificar com essa sensação de estar sempre devendo algo a alguém, de tentar dar conta de tudo enquanto se apaga aos poucos.
O roteiro acerta ao evitar o tom didático ou moralista. O foco é a humanidade da protagonista. As relações ao redor de Kátia, especialmente com os filhos e com sua agente, vivida por Júlia Rabello, ajudam a criar uma atmosfera sufocante, onde o tempo nunca é suficiente e o erro não é permitido. O celular, sempre presente, funciona quase como um antagonista, símbolo da produtividade tóxica e da cobrança constante que atravessa a vida moderna.
A direção aproxima o espectador da jornada emocional de Kátia, usando closes e enquadramentos fechados para reforçar o isolamento da personagem, mesmo quando ela está cercada de pessoas. Em alguns momentos, o filme flerta com o surreal e o simbólico, especialmente em sequências que representam o descolamento da realidade vivido pela protagonista.
“(Des)controle” é um filme incômodo e justamente por isso necessário. Ele não oferece soluções fáceis nem finais açucarados. Em vez disso, escancara feridas de uma geração de mulheres ensinadas a “dar conta de tudo” sem nunca reclamar do peso. É um drama que entretém, mas também confronta. Que emociona, mas não alivia.
No fim das contas, Carolina Dieckmann entrega aqui um verdadeiro testemunho artístico: uma performance sem filtros, corajosa e profundamente humana. “(Des)controle” não é apenas um retrato sobre alcoolismo, mas sobre exaustão emocional, expectativas irreais e o preço de tentar ser perfeita o tempo todo. Um soco no estômago daqueles que a gente sente, reflete e não esquece tão cedo.

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