segunda-feira, 11 de maio de 2026
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Ator trans interpreta personagem cis em longa nacional e indicação amplia debate sobre escolha de elenco no cinema
A participação do ator Kaik Okada na interpretação de um personagem cisgênero em um longa-metragem nacional abre espaço para discutir novas possibilidades na escolha de elenco no audiovisual brasileiro. A sugestão para a construção desta personagem partiu da Meraki, um hub de agenciamento e produção de elenco, que decidiu apresentá-lo para o teste mesmo sem a solicitação inicial de um ator trans para o papel. Em um setor historicamente marcado por estereótipos e pela limitação de artistas trans a narrativas centradas exclusivamente em sua identidade de gênero, o caso aponta para uma possibilidade urgente, mas ainda pouco comum: a presença de atores em papéis diversos nos quais essa característica não é o eixo central da narrativa.
“Acreditamos que atores e atrizes trans possam atuar e contribuir em personagens que não permeiam a identidade de gênero do artista", diz Danilo Rowlin, sócio-fundador e diretor comercial da Meraki.
O interesse de Okada pela atuação surgiu ainda na infância. A possibilidade de viver diferentes histórias por meio dos personagens foi o que o levou a se aproximar do teatro e, posteriormente, do audiovisual. Para Okada, o convite para o teste representou mais do que uma oportunidade profissional: foi a possibilidade concreta de ocupar um espaço tradicionalmente negado a artistas trans no audiovisual. “Desde que me entendo por gente, meu sonho é ser ator. Estamos evoluindo em várias questões, mas ainda sinto falta do real pertencimento sem a necessidade da constante luta probatória de nossa capacidade”, afirma.
A proposta ocorreu após o ator integrar o projeto TransFree, criado pela Meraki, projeto voltado à ampliação da pluralidade no setor. Durante o cadastro do ator, a produtora decidiu indicar Okada para o teste, compreendendo que estava dentro das qualificações solicitadas pela direção de elenco, não limitando o pedido apenas à identidade de gênero que a personagem poderia vir ter. O que começou como uma sessão fotográfica gratuita para cadastro profissional evoluiu para um convite para teste, posteriormente aprovado, para a produção atualmente em desenvolvimento. Para Kaik, iniciativas como o TransFree alteram de forma estrutural o acesso ao mercado. “Muda tudo. O projeto traz a possibilidade para todes”, relata.

