Título no Brasil: Michael
Título Original: Michael
Ano: 2026
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long
Nota: 4/5
Por Amanda Gomes
Existe uma sensação curiosa ao assistir Michael: você reconhece cada movimento, cada música, cada momento… mas, ao mesmo tempo, sente que está vendo apenas uma parte muito específica e cuidadosamente escolhida da história.
Desde o início, o filme deixa claro que segue a mesma cartilha de Bohemian Rhapsody: uma cinebiografia construída como um grande espetáculo musical, quase um “filme-karaokê”, que passeia pelos maiores hits enquanto organiza a vida do artista em uma linha narrativa confortável. E isso funciona principalmente se você entra na sala querendo reviver a grandiosidade do Michael Jackson.
A narrativa acompanha a ascensão do cantor desde os tempos do Jackson 5 até o auge da carreira solo, culminando na era de Bad. É a jornada clássica do sucesso: talento precoce, disciplina extrema, genialidade criativa e reconhecimento mundial. Só que tudo isso vem dentro de uma “bolha”, uma espécie de proteção narrativa que evita encarar de frente as contradições mais difíceis da figura pública de Michael.
E aqui entra um ponto importante: o filme escolhe não abordar as polêmicas mais pesadas da vida do artista. Em vez disso, ele constrói pequenos sinais, quase avisos, de que algo está errado: o isolamento, a relação com o corpo, a busca constante por perfeição, a infância interrompida. Mas nada disso é aprofundado de verdade. Fica sempre na superfície, como se o longa tivesse medo de atravessar essa linha.
Por outro lado, existe uma camada que me pegou muito mais do que eu esperava: a relação familiar, especialmente com o pai, vivido por Colman Domingo.
Essa dinâmica é dura, incômoda e, em muitos momentos, extremamente real. Não é só sobre um pai rígido, é sobre uma lógica de criação baseada na sobrevivência, na disciplina extrema e na ideia de que, para um artista negro, ser bom nunca seria suficiente. Era preciso ser impecável. Excelente. Impecável o tempo todo. E isso atravessa o filme de um jeito que vai além da música.
Tem uma leitura muito forte sobre identidade, sobre pressão e sobre o lugar que o Michael ocupava no mundo, não só como artista, mas como homem negro em uma indústria que não foi feita pra ele. A presença do advogado vivido por Miles Teller, por exemplo, não é só narrativa: ela escancara como certas estruturas de poder ainda exigiam mediações externas para que ele pudesse simplesmente existir como protagonista da própria carreira.
No meio disso tudo, quem segura o filme é Jaafar Jackson. A escolha de escalar o sobrinho do Michael é interessante porque foge da caricatura exagerada. Ele não tenta “imitar” de forma performática o tempo todo, existe uma suavidade ali que torna a interpretação mais natural e menos artificial do que a gente costuma ver nesse tipo de cinebiografia.
Mas, ainda assim, o filme nunca deixa de ser… seguro demais. Visualmente correto, narrativamente calculado, emocionalmente controlado. Ele evita riscos. Evita conflitos mais profundos. Evita desconforto. E, no fim, isso pesa. Porque quando você conta a história de alguém como Michael Jackson, uma figura tão complexa, tão contraditória e tão gigante, escolher mostrar só a parte “mítica” acaba diminuindo o impacto.
Ainda assim, não dá pra negar: Michael funciona. Principalmente como experiência emocional e musical. É impossível não se envolver, não cantar junto mentalmente, não sentir o peso daquela trajetória.
Mas talvez o ponto mais interessante seja outro. Esse não é um filme que vai impactar todo mundo da mesma forma.
Para algumas pessoas, ele pode soar superficial. Para outras, especialmente quem reconhece essas dinâmicas familiares e sociais na própria vivência, ele bate em um lugar muito mais profundo. E talvez seja aí que o filme realmente encontre seu valor.


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