quinta-feira, 28 de maio de 2026

Copan [Crítica]

 


Título no Brasil: Copan

Ano: 2026

Direção: Carine Wallauer 

Nota: 3,5/5,0

Direção e Roteiro | Carine Wallauer
Produção | Viviane Mendonça, Camilo Cavalcanti, Nabil Bellahsene, Justin Pechberty, Damien Megherbi
Fotografia | Carine Wallauer
Montagem | Eva Randolph
Som | Juliana Santana, Fred França
Desenho de Som | Waldir Xavier
Trilha sonora original | DJ KL Jay, DJ Will, DJ Kalfani
Gênero | Documentário
Duração | 98 minutos
País e ano de produção | Brasil / França, 2025
Empresa produtora | O PAR
Distribuição | Vitrine Filmes

Mesmo quem nunca entrou no Copana reconhece instantaneamente suas curvas gigantescas desenhadas por Oscar Niemeyer no meio da cidade. Mas o documentário Copan, dirigido por Carine Wallauer, entende que a grandiosidade do edifício vai muito além da arquitetura. O que realmente impressiona ali são as pessoas.

Ao invés de transformar o Copan em apenas um cartão-postal paulistano cheio de informações históricas e entrevistas explicativas, Wallauer escolhe um caminho muito mais íntimo e observacional. A câmera simplesmente acompanha o cotidiano do prédio: moradores entrando e saindo, funcionários trabalhando, assembleias caóticas, discussões políticas, silêncios, corredores infinitos e pequenas situações que parecem banais à primeira vista, mas que dizem muito sobre convivência, cidade e humanidade 

Existe algo quase hipnotizante na maneira como o documentário observa aquele espaço. E acho que isso funciona tão bem porque Carine Wallauer não olha para o Copan como alguém de fora. A diretora morou no edifício durante sete anos, e essa proximidade fica evidente em cada cena. O filme nunca parece invasivo ou turístico. Existe carinho, curiosidade e até certa melancolia naquele olhar.


O mais fascinante é perceber como o prédio realmente funciona como uma pequena versão do Brasil. São mais de cinco mil moradores vivendo em realidades completamente diferentes dentro do mesmo bloco de concreto. Gente rica, estudantes, idosos, artistas, trabalhadores, porteiros, comerciantes, famílias inteiras e pessoas solitárias dividindo corredores, elevadores e tensões diárias. O documentário captura isso de maneira extremamente humana.

Boa parte da narrativa acontece durante as eleições de 2022, enquanto o país inteiro parecia dividido e emocionalmente esgotado. Dentro do Copan, essa polarização política também explode em discussões de condomínio, assembleias tensas e pequenos conflitos cotidianos. Mas o filme nunca tenta transformar essas cenas em um grande debate político explícito. Pelo contrário: tudo acontece de forma muito natural, como se estivéssemos apenas observando a vida acontecendo.

O documentário confia completamente no poder da observação. Não existem entrevistas olhando diretamente para a câmera, narrações explicativas ou alguém tentando nos dizer exatamente o que pensar. O prédio fala sozinho. As pessoas falam sozinhas. Os silêncios falam sozinhos.

Em muitos momentos, tive a sensação de estar assistindo uma espécie de organismo vivo funcionando diante dos meus olhos. Os elevadores nunca param. Os corredores estão sempre cheios. As luzes acendem e apagam o tempo inteiro. Existe uma pulsação constante naquele lugar.

Ao mesmo tempo, há uma melancolia muito bonita atravessando o filme. São Paulo aparece cinzenta, cansada, barulhenta e gigantesca, mas também profundamente humana. O Copan concentra todas essas contradições dentro dele: é monumental e decadente, acolhedor e impessoal, coletivo e solitário ao mesmo tempo.

Outro detalhe que me chamou muita atenção foi a forma como o documentário valoriza os funcionários do prédio. Porteiros, faxineiros, bombeiros civis e equipes de manutenção ganham tanto espaço quanto os moradores. E isso muda completamente a perspectiva da narrativa, porque começamos a entender o Copan não apenas como símbolo arquitetônico, mas como uma máquina gigantesca que só continua funcionando graças às pessoas que trabalham ali todos os dias.

Talvez algumas pessoas sintam falta de mais contexto histórico sobre o edifício ou de entrevistas mais tradicionais. Em certos momentos, eu mesma gostaria de conhecer melhor algumas figuras que aparecem rapidamente em cena. Mas entendo que essa não era exatamente a proposta do filme. Copan não quer explicar aquele lugar. Quer fazer a gente senti-lo.

No final, o documentário acaba se tornando muito maior do que um filme sobre um prédio famoso. É um retrato sobre convivência, sobre as contradições urbanas e sobre a dificuldade e a beleza de existir junto com milhares de outras pessoas em um mesmo espaço.

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