Título Original: Verity
Ano: 2026
País: Estados Unidos
Roteirista: Nick Antosca
Diretor: Michael Showalter
Elenco: Dakota Johnson, Anne Hathaway, Josh Hartnett
Nota: 3,5/5,0
Por Amanda Gomes
Eu li Verity, da Colleen Hoover, há uns seis ou sete anos. Na época, lembro de
ter gostado muito do livro, mas, depois de tanto tempo, algumas coisas da
história já tinham ficado meio nebulosas na minha memória. Eu ainda lembrava
dos personagens, da premissa e, principalmente, daquela grande dúvida que
acompanha a história inteira, mas não lembrava exatamente de todos os
acontecimentos.
Por isso, fui assistir ao filme quase como se estivesse conhecendo a história
novamente. É claro que eu tinha uma noção de para onde algumas coisas poderiam
caminhar, mas não lembrava de tudo. E talvez isso tenha sido até melhor, porque
consegui assistir à adaptação sem ficar o tempo inteiro comparando cada cena
com o livro.
Verity acompanha Lowen, uma escritora ainda no começo da carreira que recebe
uma oportunidade bastante inesperada: assumir, praticamente como uma
ghostwriter, a continuação de uma famosa série de livros da escritora Verity
Crawford. O problema é que Verity sofreu um grave acidente, está hospitalizada
e não consegue terminar a série. Então, a editora e o marido dela, Jeremy,
convidam Lowen para ir até a casa da família e trabalhar a partir das anotações
deixadas pela autora.
Enquanto tenta entender o trabalho de Verity, Lowen começa a se aproximar de
Jeremy e também passa a conhecer um lado muito diferente daquela escritora
aparentemente bem-sucedida. É quando ela encontra um manuscrito que seria uma
autobiografia de Verity. E é aí que a história realmente começa a brincar com a
nossa cabeça.
Porque a grande pergunta de Verity sempre foi: você acredita no manuscrito ou
acredita na carta?
E acho muito interessante como tanto o livro quanto o filme conseguem brincar
com essa sensação de não saber exatamente em quem acreditar. Você passa boa
parte da história acreditando em uma versão dos acontecimentos e, quando acha
que finalmente entendeu tudo, alguma coisa aparece para colocar aquela certeza
em dúvida novamente. E o mais interessante é que, no fim, talvez você não
consiga acreditar completamente em nenhuma das versões.
Não quero nem de longe comparar Colleen Hoover ao Machado de Assis, mas a
experiência de terminar Verity e ficar discutindo o que realmente aconteceu me
lembra um pouco aquela eterna discussão sobre Capitu: você pode escolher uma
interpretação, pode defender uma versão, mas nunca parece existir uma resposta
completamente definitiva.
No filme, gostei bastante do elenco. Dakota Johnson funciona muito bem como
Lowen, principalmente porque a personagem tem justamente esse jeito mais
contido, quase blasé, e não é alguém que demonstra tudo o que está sentindo o
tempo inteiro. Anne Hathaway, por outro lado, está maravilhosa como Verity. Ela
consegue entregar uma personagem extremamente carismática e, ao mesmo tempo,
assustadora. E acho que essa dualidade é essencial para que a gente nunca saiba
exatamente o que pensar dela.
O filme tem um ritmo bastante lento e confortável. Não é aquele suspense que
fica tentando te assustar a cada cinco minutos. Ele vai construindo a história
aos poucos, acompanhando Lowen enquanto ela descobre cada novo segredo. Para
mim, os momentos mais interessantes são justamente aqueles em que entramos em
contato com os escritos de Verity. É ali que conhecemos uma versão muito mais
perturbadora daquela mulher e começamos a questionar até onde vai a verdade e
onde começa a manipulação.
Porém, foi justamente nesse ponto que senti que a adaptação perde um pouco em
relação ao livro.
Depois de assistir ao filme, fiquei tão curiosa para revisitar a história que
fiz uma releitura através do audiobook. E foi nesse momento que percebi ainda
mais o quanto o livro consegue entrar na cabeça da Lowen e, principalmente, na
cabeça da própria Verity. No livro, temos acesso aos pensamentos, às sensações
e às coisas absurdas que passam pela mente dessas personagens. No cinema,
algumas dessas coisas precisam ser mostradas, e sinto que parte dessa
personalidade acaba ficando menos evidente.
[SPOILER DE ADAPTAÇÃO DO LIVRO]
Uma das mudanças está na família de Verity e Jeremy. No livro, eles têm gêmeas
e, posteriormente, um terceiro filho. No filme, essa dinâmica foi alterada e
eles têm apenas um casal de filhos gêmeos. Confesso que, assistindo somente ao
filme, essa mudança não me incomodou. Mesmo depois de reler o livro, não acho
que seja algo que prejudique diretamente a história.
O que senti falta foi de parte das questões relacionadas à maternidade de
Verity. No livro, isso ajuda bastante a construir a personagem e a mostrar
algumas das coisas mais perturbadoras sobre ela. No filme, essa parte é bem
mais suavizada e, para mim, isso faz com que a gente perca um pouco da
complexidade de Verity.
[FIM DO SPOILER]
Também acho que o suspense poderia ter sido um pouco mais bem distribuído. O
filme é muito mais sobre aquela sensação constante de descoberta do que sobre
grandes momentos de tensão. Os maiores picos de ansiedade ficam mais
concentrados perto do final. E, como eu já conhecia a história, talvez eu tenha
sentido ainda mais essa demora para chegar aos momentos realmente tensos.
Por outro lado, a fotografia é belíssima e combina muito com a atmosfera da
história. Existe algo muito bonito e, ao mesmo tempo, desconfortável naquela
casa, e acho que o filme consegue transmitir bem essa sensação.
No geral, eu diria que Verity é uma adaptação bastante fiel ao livro. Talvez
uns 90% do que eu lembrava estar ali, de alguma maneira, e as mudanças que
foram feitas não chegaram a me incomodar profundamente. Para quem leu o livro e
está indo ao cinema esperando reconhecer a história que conheceu anos atrás,
acredito que a experiência seja bastante satisfatória.
E eu saí do cinema tão intrigada quanto quando terminei o livro pela primeira
vez.
Na verdade, acho que a melhor coisa que aconteceu depois de assistir ao filme
foi justamente ter vontade de reler Verity. Porque, depois de tantos anos,
voltar para aquela história e enxergar algumas coisas com outros olhos me fez
questionar ainda mais aquilo que eu achava que sabia.
E talvez seja justamente essa a graça de Verity: terminar a história sem saber
se você descobriu a verdade ou se simplesmente escolheu em qual mentira prefere
acreditar.


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