quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Verity [Crítica ]


Título no Brasil: Verity
Título Original: Verity
Ano: 2026
País: Estados Unidos
Roteirista: Nick Antosca
Diretor: Michael Showalter
Elenco: Dakota Johnson, Anne Hathaway, Josh Hartnett
Nota: 3,5/5,0
Por Amanda Gomes 


Eu li Verity, da Colleen Hoover, há uns seis ou sete anos. Na época, lembro de ter gostado muito do livro, mas, depois de tanto tempo, algumas coisas da história já tinham ficado meio nebulosas na minha memória. Eu ainda lembrava dos personagens, da premissa e, principalmente, daquela grande dúvida que acompanha a história inteira, mas não lembrava exatamente de todos os acontecimentos.

Por isso, fui assistir ao filme quase como se estivesse conhecendo a história novamente. É claro que eu tinha uma noção de para onde algumas coisas poderiam caminhar, mas não lembrava de tudo. E talvez isso tenha sido até melhor, porque consegui assistir à adaptação sem ficar o tempo inteiro comparando cada cena com o livro.

Verity acompanha Lowen, uma escritora ainda no começo da carreira que recebe uma oportunidade bastante inesperada: assumir, praticamente como uma ghostwriter, a continuação de uma famosa série de livros da escritora Verity Crawford. O problema é que Verity sofreu um grave acidente, está hospitalizada e não consegue terminar a série. Então, a editora e o marido dela, Jeremy, convidam Lowen para ir até a casa da família e trabalhar a partir das anotações deixadas pela autora.

Só que, obviamente, uma casa cheia de segredos nunca é apenas uma casa cheia de anotações.


Enquanto tenta entender o trabalho de Verity, Lowen começa a se aproximar de Jeremy e também passa a conhecer um lado muito diferente daquela escritora aparentemente bem-sucedida. É quando ela encontra um manuscrito que seria uma autobiografia de Verity. E é aí que a história realmente começa a brincar com a nossa cabeça.

Porque a grande pergunta de Verity sempre foi: você acredita no manuscrito ou acredita na carta?

E acho muito interessante como tanto o livro quanto o filme conseguem brincar com essa sensação de não saber exatamente em quem acreditar. Você passa boa parte da história acreditando em uma versão dos acontecimentos e, quando acha que finalmente entendeu tudo, alguma coisa aparece para colocar aquela certeza em dúvida novamente. E o mais interessante é que, no fim, talvez você não consiga acreditar completamente em nenhuma das versões.

Não quero nem de longe comparar Colleen Hoover ao Machado de Assis, mas a experiência de terminar Verity e ficar discutindo o que realmente aconteceu me lembra um pouco aquela eterna discussão sobre Capitu: você pode escolher uma interpretação, pode defender uma versão, mas nunca parece existir uma resposta completamente definitiva.

No filme, gostei bastante do elenco. Dakota Johnson funciona muito bem como Lowen, principalmente porque a personagem tem justamente esse jeito mais contido, quase blasé, e não é alguém que demonstra tudo o que está sentindo o tempo inteiro. Anne Hathaway, por outro lado, está maravilhosa como Verity. Ela consegue entregar uma personagem extremamente carismática e, ao mesmo tempo, assustadora. E acho que essa dualidade é essencial para que a gente nunca saiba exatamente o que pensar dela.

O filme tem um ritmo bastante lento e confortável. Não é aquele suspense que fica tentando te assustar a cada cinco minutos. Ele vai construindo a história aos poucos, acompanhando Lowen enquanto ela descobre cada novo segredo. Para mim, os momentos mais interessantes são justamente aqueles em que entramos em contato com os escritos de Verity. É ali que conhecemos uma versão muito mais perturbadora daquela mulher e começamos a questionar até onde vai a verdade e onde começa a manipulação.

Porém, foi justamente nesse ponto que senti que a adaptação perde um pouco em relação ao livro.

Depois de assistir ao filme, fiquei tão curiosa para revisitar a história que fiz uma releitura através do audiobook. E foi nesse momento que percebi ainda mais o quanto o livro consegue entrar na cabeça da Lowen e, principalmente, na cabeça da própria Verity. No livro, temos acesso aos pensamentos, às sensações e às coisas absurdas que passam pela mente dessas personagens. No cinema, algumas dessas coisas precisam ser mostradas, e sinto que parte dessa personalidade acaba ficando menos evidente.

[SPOILER DE ADAPTAÇÃO DO LIVRO]

Uma das mudanças está na família de Verity e Jeremy. No livro, eles têm gêmeas e, posteriormente, um terceiro filho. No filme, essa dinâmica foi alterada e eles têm apenas um casal de filhos gêmeos. Confesso que, assistindo somente ao filme, essa mudança não me incomodou. Mesmo depois de reler o livro, não acho que seja algo que prejudique diretamente a história.

O que senti falta foi de parte das questões relacionadas à maternidade de Verity. No livro, isso ajuda bastante a construir a personagem e a mostrar algumas das coisas mais perturbadoras sobre ela. No filme, essa parte é bem mais suavizada e, para mim, isso faz com que a gente perca um pouco da complexidade de Verity.

[FIM DO SPOILER]

Também acho que o suspense poderia ter sido um pouco mais bem distribuído. O filme é muito mais sobre aquela sensação constante de descoberta do que sobre grandes momentos de tensão. Os maiores picos de ansiedade ficam mais concentrados perto do final. E, como eu já conhecia a história, talvez eu tenha sentido ainda mais essa demora para chegar aos momentos realmente tensos.

Por outro lado, a fotografia é belíssima e combina muito com a atmosfera da história. Existe algo muito bonito e, ao mesmo tempo, desconfortável naquela casa, e acho que o filme consegue transmitir bem essa sensação.

No geral, eu diria que Verity é uma adaptação bastante fiel ao livro. Talvez uns 90% do que eu lembrava estar ali, de alguma maneira, e as mudanças que foram feitas não chegaram a me incomodar profundamente. Para quem leu o livro e está indo ao cinema esperando reconhecer a história que conheceu anos atrás, acredito que a experiência seja bastante satisfatória.

E eu saí do cinema tão intrigada quanto quando terminei o livro pela primeira vez.

Na verdade, acho que a melhor coisa que aconteceu depois de assistir ao filme foi justamente ter vontade de reler Verity. Porque, depois de tantos anos, voltar para aquela história e enxergar algumas coisas com outros olhos me fez questionar ainda mais aquilo que eu achava que sabia.

E talvez seja justamente essa a graça de Verity: terminar a história sem saber se você descobriu a verdade ou se simplesmente escolheu em qual mentira prefere acreditar.

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é muito importante para mim! Me diga o que achou dessa postagem e se quiser que eu visite seu blog, informe o abaixo de sua assinatura ;)