segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Cara-de-Barro


 Título no Brasil: Cara-de-Barro

Título Original: Clayface

Ano: 2026

Direção: James Watkins | 

Roteiro: Mike Flanagan, Hossein Amini 

Elenco: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Eddie Marsan 

Nota: 4/5

Por Amanda Gomes


Confesso que acho muito interessante quando os filmes de super-heróis se permitem sair daquela fórmula que já conhecemos tão bem. E "Cara-de-Barro" faz justamente isso ao apostar no terror corporal para contar a origem de um dos vilões da DC. O resultado é um filme que mistura momentos grotescos, drama e uma reflexão sobre identidade, sem precisar transformar seu protagonista em um herói incompreendido. E confesso que por ser fã da DC, esseera um dos lançamentos para o qual eu estava mais empolgada.


A história acompanha Matt Hagen, um ator em ascensão que vê sua carreira desmoronar depois de ter o rosto desfigurado por ordem de um criminoso. Desesperado para recuperar a própria aparência, ele aceita participar de um tratamento experimental que, inicialmente, parece ser sua salvação. O problema é que os efeitos desse procedimento vão muito além do que ele poderia imaginar, levando Matt por um caminho cada vez mais sombrio.


Uma das coisas que mais funcionam é a atuação de Tom Rhys Harries. Ele consegue transmitir o carisma de uma estrela, o desespero de alguém que perdeu tudo e, aos poucos, a transformação de um homem que começa a cruzar limites cada vez mais perigosos. É interessante acompanhar essa mudança porque o filme não tenta justificar todas as atitudes de Matt: por mais que seja possível sentir empatia por seu sofrimento, isso não apaga suas escolhas nem impede que ele se torne o verdadeiro vilão da história.


O body horror também merece destaque. As próteses, a maquiagem e as transformações de Matt criam imagens que conseguem ser fascinantes e repulsivas ao mesmo tempo. É aquele tipo de filme que faz você querer desviar o olhar, mas também desperta curiosidade para descobrir até onde tudo aquilo vai chegar. A produção poderia ter explorado ainda mais o desconforto e a intensidade dessas cenas, mas, mesmo assim, entrega momentos bastante marcantes.


Ao mesmo tempo, "Cara-de-Barro" não é apenas sobre violência e deformações. Existe uma discussão interessante sobre aparência, identidade e atuação. Afinal, estamos falando de um homem cuja profissão depende do próprio rosto e que, depois de perdê-lo, passa a ter o poder de assumir a aparência de outras pessoas. A ideia é ótima e combina muito com a trajetória do personagem, embora eu tenha sentido que alguns desses temas poderiam ter sido aprofundados. Em certos momentos, o filme parece ter mais potencial do que consegue aproveitar, e algumas tramas paralelas acabam não se encaixando tão bem no conjunto.


Ainda assim, considero muito acertada a decisão de apostar em um filme de terror dentro do universo da DC. É uma proposta diferente, que dá espaço para explorar um personagem conhecido por outro ângulo e mostra como esse universo pode funcionar sem precisar seguir sempre o mesmo caminho. "Cara-de-Barro" talvez não alcance todo o potencial de suas ideias, mas entrega uma história angustiante, visualmente marcante e com uma atuação que sustenta boa parte de sua força.


No fim, o que mais me chama a atenção é como a transformação física de Matt acaba sendo apenas uma parte do horror. O rosto muda, o corpo muda, mas o que realmente assusta é perceber que, por trás de tudo isso, existe alguém que está perdendo a própria identidade e que talvez nunca tenha sido tão inocente quanto gostaria de acreditar.

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