terça-feira, 28 de janeiro de 2020

[Resenha]: A intérprete


Ficha Técnica
Título original: Deutsches Haus
Autora: Annette Hess
País de origem: Alemanha
Tradução: Ivo Korytowski
Editora: Arqueiro
Número de páginas: 272
Ano de edição: 2019

A trama envolvente acaba se embaraçando em si mesma

Quando eu soube do que se tratava o livro de estreia de Annette Hess, fiquei empolgadíssima para colocar as mãos nele. Afinal, além de escritora, tenho formação de tradutora e intérprete. Durante a minha formação, cansamos de ouvir sobre como, apesar de ser uma das profissões mais antigas, foram os julgamentos de Nuremberg que trouxeram à luz a importância desses profissionais. Afinal, sem eles (nós) para facilitar os depoimentos, os procedimentos levariam muito mais tempo. 
O livro, narrado em terceira pessoa onisciente, alterna entre os pontos de vista de Eva Bruhn, Annegret Bruhn e David Miller, para contar a história de uma intérprete de polonês nos julgamentos dos nazistas na Alemanha Ocidental, e como ela acaba descobrindo mais sobre a sua família e seu passado do que gostaria. A tradutora e intérprete Eva Bruhn é convocada para interpretar os depoimentos nos julgamentos dos nazistas, 20 anos após a Segunda Guerra mundial. A família de Eva tem um restaurante no bairro boêmio da cidade e ela, que está prestes a ser pedida em casamento pelo noivo, teme que ele tenha vergonha dela por conta dos pais e de onde mora. A grande ironia é que Jürgen teria motivos muito mais graves para se envergonhar, conforme ela descobrirá em breve. 

Por isso, Eva se depara com a hostilidade dos pais e da irmã, quando anuncia a intenção de trabalhar no julgamento pelos próximos dias. Jürgen um rapaz conservador, cujo pai foi um prisioneiro de guerra com síndrome de stress pós traumático e um grau de demência, também não gosta nada da ideia, o que ameaça o noivado dos dois. Outro problema, para Jürgen, é a presença de David Miller, um canadense que está fazendo parte do processo, por quem Eva parece se interessar. A própria Eva passa a questionar seus planos de se casar com o noivo. Será que ficará feliz sendo esposa de um comerciante, e apenas isso?
Em primeiro lugar, independente do meu parecer sobre este livro, respeito a autora e o trabalho que ela investiu nele. A escrita de Annette tem um ritmo agradável, e a escolha de palavras aproxima o leitor. Inclusive, talvez eu desse uma segunda chance ao trabalho dela no futuro. Afinal, trata-se de seu primeiro livro. 
As cenas de depoimentos eram interessantes, a princípio. Demorei um pouco a pegar o ritmo, mas depois da metade entrei no embalo, e achei que gostaria muito da história. Mas não gostei, e direi por quê. 
Para começar, me incomodei com a tradução. Eu não me oponho a ler obras traduzidas, considero que enriquece o meu vocabulário como qualquer outro livro e procuro saber o nome dos meus colegas. Minha parte preferida de ler livros traduzidos é aprender sobre tradução com o trabalho alheio. Desta eu não gostei. A grande ironia aqui foi um excesso de “quãos”, o que deixou a obra literal, para um livro sobre uma tradutora. Senti muitas vezes que estava lendo o original por trás. 
Porém, se o problema do livro fosse somente a tradução, estaria ótimo. Era só ler o original e pronto. Problema resolvido. 
Faltou pesquisa. Nós escritores sempre aprendemos a escrever sobre o que conhecemos. Sendo alemã, a autora com certeza conhece ruas e detalhes geográficos. Eu gostei das cenas de visita aos campos de trabalhos e de extermínio. Gosto de livros sobre o tema, por mais indigestos que sejam. É necessário trazer esses horrores à tona, para sermos lembrados do que os seres humanos são capazes. De fato, “A menina que roubava livros” figura na minha lista de livros preferidos de todos os tempos. Para ser justa, às vezes eu sentia a mesma agonia da intérprete diante da fala apressada ou baixa demais de uma testemunha. Porém, certos detalhes de procedimento passaram batido pela autora, o que sacrificou a veracidade da obra. Para uma história sobre uma intérprete, há muito poucas e insuficientes cenas dela como tal.
A troca de pontos de vista é feita de forma abrupta, e faz com que os leitores precisem voltar e reler uma mesma passagem para entender de quem se trata. A protagonista se refere a outros personagens por apelidos de acordo com as características físicas deles, e nunca chega a mencioná-los pelo nome, mesmo depois de conhecê-los bem. 
Por falar em personagens, eles não seguem uma lógica interna, coerente com as suas personalidades. Todos sofriam com falta de profundidade. Não consegui torcer por nenhum, nem entender as motivações por trás de suas ações. Os casais da história simplesmente não fazem sentido. Sabe aquela sensação de “o que foi isso?” Por fim, a forma como fomos conhecendo o lado oculto de outros personagens não serviu a um propósito além de chocar o leitor. 
Alguns personagens caíam de paraquedas e saíam tão abruptamente quanto entravam. Os desaparecimentos não chegam a ser elucidados e muitas pontas soltas ainda permaneciam ao final da história. Foi com surpresa e consternação que me deparei com a página de agradecimentos. Como assim? Onde foi parar o resto? Faltaram páginas. 
Sinceramente, se fosse recomendar um livro sobre as os horrores do holocausto, seus impactos sobre a humanidade e a natureza humana, com certeza indicaria outros. Porém, acho que a autora pode melhorar, e talvez eu lesse outras obras dela. 


por Larissa Rumiantzeff

*ebook gentilmente cedido pela Editora Arqueiro

3 comentários:

  1. Puxa..eu estava com esperança demais nesse livro também! Aliás, tudo que envolve um pouco sobre Segunda Guerra e seus horrores, chama minha atenção, ainda mais nessa semana onde um pouquinho da dor voltou à tona pela "celebração" dos anos de libertação dos campos de concentração.
    Mesmo assim, se puder, quero sim, ler...mesmo sabendo que encontrarei não o que esperava!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Já tinha visto a capa desse livro por ai, mas nunca parei para saber sobre o que realmente se tratava... Uma pena a autora ter tido essa falhas, como é seu primeiro livro, vamos esperar q não os cometa no próximo, né?! Mas vou dizer, fiquei curiosa para saber o que a protagonista descobre viu...

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  3. Larissa!
    Vou falar sobre o livro. Gosto de livros que retratam o Nazismo e fico estarrecida a cada nova leitura, aqui parece que ainda tem toda uma tragédia familiar por trás que nos deixa curiosos para fazer a leitura, mas pelo visto, não há de sua parte uma recomendação o que me deixou bem em dúvida.
    cheirinhos
    Rudy

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