Título no Brasil: Família de Aluguel
Título Original: Rental Family
Ano: 2025
Direção: Mitsuyo Miyazaki
Roteiro: Mitsuyo Miyazaki, Stephen Blahut
Elenco: Brendan Fraser, Mari Yamamoto, Takehiro Hira
Nota: 3,5/5,0
Por Amanda Gomes
Delicado e comovente sem nunca pesar no sentimentalismo, “Família de Aluguel” é uma daquelas agradáveis surpresas que chegam quase de mansinho, mas ficam.
Na trama, Phillip Vanderploeg é um ator americano vivendo no Japão, preso a uma carreira estagnada e a papéis secundários que exploram sua imagem de estrangeiro deslocado. Em meio à frustração profissional, ele aceita uma proposta inusitada: trabalhar para uma agência que “aluga” familiares e amigos para situações sociais específicas, um negócio que realmente existe no país e que revela muito sobre uma sociedade marcada pela dificuldade de comunicação emocional e pela necessidade constante de manter aparências.
Para quem assiste de fora, especialmente sob um olhar ocidental (e brasileiro), a premissa causa estranhamento imediato. Muitas das situações apresentadas soariam como crimes por aqui, envolvendo fraudes emocionais e identidades fabricadas. No entanto, o filme não se interessa por julgamentos morais ou implicações legais. Seu foco está no impacto humano dessas relações encenadas, tanto para quem contrata o serviço quanto para quem interpreta esses papéis improvisados. São histórias de solidão, vergonha, desejo de pertencimento e medo de rejeição que atravessam cada pequeno “trabalho” realizado pela agência.
Phillip, ao contrário de seus colegas mais pragmáticos, rapidamente começa a se envolver emocionalmente com as pessoas para quem atua. Isso fica especialmente evidente quando ele assume o papel de pai de uma garotinha e quando finge ser um jornalista entrevistando um ator veterano em processo de esquecimento. Nesses momentos, o filme encontra sua camada mais sensível: a linha entre atuação e afeto se dissolve, e a empatia passa a ser tanto um gesto bonito quanto um risco real.
A narrativa não se aprofunda totalmente em todos os conflitos que propõe. Em sua primeira metade, o roteiro parece se manter somente sobre as situações, com uma montagem que apresenta ideias interessantes sem deixá-las amadurecer completamente. Ainda assim, conforme a história avança, o filme ganha força ao permitir que as máscaras sociais de seus personagens caiam pouco a pouco, especialmente em cenas silenciosas e econômicas, que dizem mais pelo que sugerem do que pelo que explicitam.
Brendan Fraser entrega uma atuação contida, que pode dividir opiniões. Seu jeito desajeitado e introspectivo funciona dentro da proposta do filme, criando um protagonista mais observador do que carismático. Ainda assim, são os personagens ao redor que trazem mais vida à narrativa, ajudando a sustentar emocionalmente a história e oferecendo alguns dos momentos mais tocantes e humanos do longa.
“Família de Aluguel” não é um grande filme no sentido de invenção cinematográfica ou ousadia formal. Sua força está justamente na despretensão. É um retrato delicado de uma sociedade que valoriza a harmonia, mas sofre com a ausência de vínculos autênticos.
No fim, o filme deixa a sensação de um abraço tímido, porém sincero. Pode até desaparecer da memória algum tempo depois, mas enquanto dura, toca em algo muito real: a necessidade humana de ser visto, mesmo que, inicialmente, seja através de um papel emprestado.

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