Título no Brasil: Muito Prazer
Ano: 2026
Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Elenco: Luisa Arraes, Daniel de Oliveira, Samantha Jones
Nota: 3,5/5,0
Por Amanda Gomes
Acho que a melhor forma de começar essa crítica é dizendo que o filme é exatamente o que eu esperava: estranho, engraçado e um pouquinho absurdo.
A história acompanha Rubem, um motorista de aplicativo que herda um motel que acreditava estar abandonado. Quando chega ao local, ele descobre que Grace, uma antiga funcionária, está vivendo ali. Os dois acabam se tornando parceiros na tentativa de reabrir o Motel Pérola e encontrar uma forma de fazer o negócio dar certo.
Até que surge uma ideia que, olhando de fora, parece completamente absurda. Filmar os hóspedes escondido e vender os vídeos na internet. É aí que entra Nalva, uma vendedora de câmeras que acaba se tornando parte do plano e, consequentemente, do trio que conduz boa parte da história.
E eu preciso dizer: Samantha Jones foi uma das minhas maiores surpresas. Nalva tem uma energia completamente diferente dos outros personagens e, sempre que aparece, parece que o filme ganha um pouco mais de vida. Ela consegue arrancar risadas mesmo nas situações mais absurdas e tem uma presença que faz a gente querer que ela apareça mais.
Daniel de Oliveira também funciona muito bem como Rubem. Existe uma ingenuidade no personagem que combina bastante com as situações cada vez mais improváveis nas quais ele se envolve. Luisa Arraes, por outro lado, traz para Grace uma personalidade mais difícil de decifrar. É uma personagem que parece estar sempre escondendo alguma coisa, e gostei justamente dessa sensação de nunca saber completamente o que ela está pensando. A relação entre os dois também é curiosa.
O romance acontece de maneira relativamente rápida e, confesso, em alguns momentos senti falta de mais tempo para acreditar nessa aproximação. Ainda assim, acho que a dinâmica funciona dentro da proposta mais leve do filme. Não é exatamente uma história de amor tradicional, e talvez nem precise ser.
O que mais gostei em “Muito Prazer” foi justamente essa mistura de gêneros. Tem romance, comédia, crime, situações absurdas e uma pitada de crítica social. Tudo acontece dentro daquele motel decadente, que acaba se tornando praticamente o centro de todas as confusões.
O filme tem aquele humor que não precisa necessariamente de uma grande piada. Às vezes, é simplesmente o absurdo de uma situação que faz a gente rir. Os personagens tomam decisões completamente questionáveis e, mesmo assim, encontram justificativas que parecem fazer sentido dentro da cabeça deles. É muito fácil assistir e pensar: “isso vai dar muito errado”.
Ao mesmo tempo, existe uma crítica interessante por trás de toda essa confusão. O filme fala sobre dinheiro, trabalho, internet, exposição e sobre a transformação da intimidade em produto. Rubem é alguém que já passou por diferentes empregos e acaba encontrando no motel uma possibilidade de ganhar dinheiro justamente em um momento em que parece cada vez mais difícil sobreviver.
A ideia de gravar os hóspedes escondido e colocar esse conteúdo na internet também levanta uma discussão sobre privacidade e sobre até onde as pessoas estão dispostas a ir quando existe dinheiro envolvido.
Só que “Muito Prazer” não parece querer transformar essas questões em uma grande discussão moral. E aqui eu fiquei um pouco dividida.
Por um lado, gostei da escolha de não transformar o filme em uma palestra. Por outro, em alguns momentos senti que determinadas questões poderiam ter sido exploradas um pouco mais. A história apresenta ideias muito interessantes, mas às vezes passa rapidamente por elas para chegar à próxima situação absurda. Principalmente quando entra em assuntos como redes sociais, algoritmos e inteligência artificial, tive a sensação de que o filme poderia ter ido um pouco além.
Ainda assim, acho que essa superficialidade faz parte da proposta. “Muito Prazer” está muito mais interessado em provocar e divertir do que em entregar respostas definitivas. E isso pode funcionar muito bem para quem entra na sessão sabendo o que esperar.
Visualmente, o filme também tem momentos muito interessantes. O motel é um cenário perfeito para esse tipo de história, e a direção aproveita bem os espaços para criar situações engraçadas e, algumas vezes, um pouco desconfortáveis. Mas talvez o maior mérito de “Muito Prazer” seja não tentar ser um filme sério demais.
Não é um filme que vai mudar a minha vida ou entrar na lista das minhas comédias brasileiras favoritas, mas é uma produção que me fez rir, me deixou curiosa e, principalmente, me fez lembrar por que gosto tanto quando o cinema brasileiro se permite experimentar.
“Muito Prazer” é uma comédia brasileira leve, esquisita e cheia de situações improváveis, que encontra graça em personagens tentando sobreviver em um mundo onde quase tudo pode virar mercadoria, até a intimidade.

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