sexta-feira, 5 de julho de 2019

Menina que via Filmes: Cézanne e eu [Crítica]



Título Original: Cézanne et moi
Título no Brasil: Cézanne e eu
Data de lançamento 4 de julho de 2019 (1h 54min)
Direção: Danièle Thompson
Elenco: Guillaume Gallienne, Guillaume Canet, Alice Pol mais
Gêneros Comédia dramática, Biografia, Histórico
Nacionalidade França
por Cecilia Mouta

O filme Cézanne e Eu conta a história de amizade entre o pintor Paul Cézanne (Guillaume Gallienne) e o escritor Émile Zola (Guillaume Canet). A história começa com um reencontro dos dois e depois volta aos tempos em que eram crianças e se conheceram. Daí pra frente a trama se desenvolve em ordem cronológica com algumas intercalações com o tempo presente. Mas não achei esse tipo de estrutura narrativa interessante para a história. O presente, na maior parte do filme, não tinha nada de interessante para mostrar e não fez a história andar para frente. Então, geralmente, eram cenas de muito texto falado, pouca ação e muitas vezes eu ficava perdida com o que os personagens falavam ou do modo como agiam por não os conhecerem tão bem. Já para o final do filme, quando o espectador sabe tudo o que aconteceu, as cenas do presente se tornaram mais interessantes. Talvez fosse melhor deixar para mostrá-las só no final. 

Como muitos filmes que falam da vida de um pintor, a direção nos traz muitos planos detalhes de objetos, como um fazer artístico. Relembra a questão do retoque, do aperfeiçoamento. Acho que esse tipo de direção casa muito bem com a temática. Outro ponto muito explorado pela direção são as paisagens. Grande parte da história se passa em Aix, uma cidade francesa, e lá a direção de Danièle Thompson soube explorar muito bem a beleza natural do local como também a luz. Muitos planos abertos, exibindo o colorido da paisagem, a iluminação do sol. Como Cézanne foi um grande pintor da natureza, achei uma boa metáfora. 
E por falar nas pinturas de Cézanne, o filme poderia ter mostrado mais de suas obras. Não sei se por alguma questão de direito autoral, mas quase não vemos as obras do pintor ao longo da narrativa, apesar de o vermos criando-as o tempo todo. 
Mas apesar de toda a beleza, o conflito da história não fica bem delineado. Sabemos porque Cézanne e Émile se tornaram amigos, apesar de ser uma passagem rápida no filme. Mas Cézanne é um cara muito difícil de lidar, da juventude em diante, muito temperamental e em nenhum momento entendemos porque Émile é tão fiel a essa amizade. E num certo ponto, a história se torna repetitiva. Sempre Cézanne faz ou fala alguma besteira, arruma uma briga ou uma confusão, Émile o defende, tenta acalmá-lo, passa a mão por cima da cabeça dele e a vida segue. Com isso, a história se torna um pouco previsível e massante. No final, o filme ganha um pouco de fôlego com o clímax.
Há muitas questões que o roteiro não explora. O final explica algumas delas, mas se a história tivesse sido mais bem estruturada, talvez pudesse trabalhar melhor a carga dramática dos dois personagens. Émile sempre pareceu um personagem meio apático sendo que no final percebemos que ele tinha seus próprios conflitos a enfrentar. Mas uma cena não é suficiente para explorar isso. Independente disso, Cézanne e Eu é uma história interessante para quem gosta de narrativas sobre o mundo artístico, debates sobre o que faz um gênio e coisas do tipo. 


Crítica 2 - por Jéssica de Aguiar

Vidas entre obras
 “Cézanne e eu” conta a história da relação entre o pintor Paul Cézanne (Guillaume Gallienne), o autor Émile Zola (Guillaume Canet) e suas respectivas relações com a arte. Sem a preocupação com uma linha temporal padrão, o filme é centrado no reencontro entre os amigos e tem nesse gancho o ponto de partida para pincelar momentos marcantes na vida de ambos, passando desde a infância campestre vivida no ensolarado sul da França até o fim da vida dos artistas. 

Após se conhecerem no colégio, Cézanne e Zola se tornaram inseparáveis, tendo momentos marcantes da vida entrelaçados, apesar das diferenças financeiras. Cézanne era filho de um dos donos do único banco da cidade, herdeiro direto da fortuna do pai, enquanto Zola era filho de uma costureira viúva que se desdobrava para sustentar o filho. As diferenças não param por aí, os temperamentos dos artistas também eram opostos, enquanto Émile era equilibrado, Paul tinha explosões de fúria, que atingiam todos à sua volta, o que se resumia ao amigo escritor diversas vezes. 
Com narrativa não linear, a obra retrata momentos específicos da vida em que o pintor e o escritor se encontram. Desde a ajuda financeira que ora vem de Cézanne, ora de Zola e se torna mais a frente motivo para mais um dos desentendimentos entre eles. Outro ponto que afasta os dois é a forma com que Cézanne trata a modelo e mulher Hortense (Déborah François), menosprezando-a e se negando a reconhecê-la como esposa por anos. 
O pintor é um misto de gênio artístico com ego maníaco, embora suas obras viessem a ser reconhecidas posteriormente e hoje sejam consideradas um marco pós-impressionista, além de Cézanne ser tido como o precursor do cubismo, sua vida pessoal, que é abordada no filme, não é motivo de orgulho. Em diversos momentos fica clara a sua necessidade de ferir as pessoas ao seu redor e é demonstrada a sua obsessão pelas pinturas, não obsessão com as obras em si, mas sim pela frustração causada pelo não reconhecimento. 
Um dos objetivos principais do pintor era receber reconhecimento no Salão de Belas- Artes, onde estavam expostas obras de pintores como Monet, a quem Cézanne insistia em criticar, por uma clara frustração em relação ao reconhecimento obtido pelo artista. Uma das falas recorrentes de Paul é remetendo à raiva que tem dos impressionistas, com suas iluminações e paisagens retratadas de forma monótona para o artista, (mal sabia ele que seria relacionado ao movimento mais a frente). A forma que Cézanne se relaciona com suas obras é extremamente passional e violenta, os quadros que não o satisfaziam ou faziam-no lembrar de frustrações eram esfaqueados, servindo de expurgo para suas emoções e transmitindo mais uma vez sua dificuldade de controlar as mesmas. 
Apesar de Cézanne ser obcecado por suas pinturas, havia espaço em sua vida para dois amores: o amigo escritor Émilie Zola e Alexandrine (Alice Pol), ambas as relações conturbadas e entrelaçadas. Alexandrine é uma jovem artesã de flores artificiais, que possuía a admiração a distancia de Zola, mas se relacionava com Cézanne, o que em determinado momento se torna insuportável, dados os ataques de fúria do pintor, logo Alexandrine se envolve com o escritor Émilie, com quem vem a se casar. Com isso, a mulher se torna mais um motivo de tensão entre os dois amigos.
Em oposição ao perfil explosivo de Cézanne, estava Émilie Zola. O escritor é mostrado no filme como alguém que, apesar das divergências, estava sempre disposto a apoiar Paul, até mesmo quando isso se opõe à opinião de todos ao seu redor. Émilie começa a receber reconhecimento em uma coluna que escreve no jornal, fazendo críticas sobre os artistas da época, com o tempo também é reconhecido por suas obras literárias e ganha destaque na sociedade francesa, se tornando assim parte da burguesia que tanto criticara. 
A relação entre os dois amigos mostrada na tela é desconfortável em alguns momentos, mas mostra a realidade das tempestades emocionais que uma amizade enfrenta ao longo de 40 anos. O paralelo colocado entre a forma que Cézanne lidava com sua arte e a de Émilie deve ser destacado. De um lado temos a necessidade de auto-afirmação passional, e de outro a técnica sendo aplicada ao longo dos anos de forma a buscar a satisfação do público. Mas mesmo com as divergências, pode ser observada uma relação necessária, para o crescimento de ambos como artistas. 
O destaque vai para a atuação de Guillaume Gallienne, que traz às telas as emoções do pintor e mostra a complexidade que existe na relação entre um artista e sua obra. A intérprete de Alexandrine, Alice Pol, também consegue transmitir com maestria a passionalidade que é necessária para viver entre artistas. 
A diretora e roteirista da obra, Danièle Thompson, buscou claramente retratar um saudosismo na relação de amizade entre Cézanne e Zola, com flashes e referencias textuais aos dias ensolarados nos riachos do interior francês, mas ao mesmo tempo, conseguiu expressar a dificuldade de uma relação entre artistas, que, por expressarem suas emoções através de obras, em muitos momentos exacerbam a intensidade das mesmas. 
Com uma fotografia que transita entre o cenário frio e chuvoso das ruas de Paris e as montanhas e rios de Aix-en-Provence, o espectador consegue ser transportado para a história, tendo como pano de fundo o cenário que deu origem à diversas obras de Cézanne, tendo ainda em sua cena final o enquadramento do Mont Sainte-Victoire retratado mais de sessenta vezes pelo pintor, entre desenhos e pinturas à óleo. 
O único aspecto que deixa a desejar na obra é a cadência do desenrolar dos fatos. Sendo uma obra biográfica, não é esperado muito dinamismo, mas algumas cenas possuem extensão maior que o necessário, tornando o filme cansativo para o público em alguns momentos. Embora, para aficionados por artes plásticas, a obra seja um deleite, mostrando a inspiração e o processo de criação dos quadros de Cézanne. 


Cabine de imprensa à convite da distribuidora
*Nossos colunistas são voluntários, os textos assinados por eles são originais de suas autorias.


3 comentários:

  1. Adoro quando a resenha vem assim, com duas opiniões que mesmo até sendo parecidas em alguns pontos, apontam as diferentes emoções de cada pessoa.
    Ainda não tinha lido nadinha sobre este filme e mesmo que não seja um gênero que eu veja muito, não há como negar os nomes dos artistas.
    Fiquei meio pé atrás com a falta de mostrar as obras do pintor. É um universo maravilhoso que por vezes, muitos de nós, não tem acesso. Por isso, talvez teria sido interessante expor isso no longa.
    Mas no mais, quero sim, conferir assim que for possível!!!!
    Parece ter uma fotografia maravilhosa. Amo esse ar chuvoso, nostálgico!
    Beijo

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  2. Assim, logo de cara, sem assistir ao filme, a impressão que eu tenho é de que o pintor Paul Cezanne parece mais um garoto mimado que só age sem pensar enquanto o autor Emille Zolla tem que ficar passando a mão na cabeça dele. Isso me irrita profundamente. kkkkkkkkk

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  3. Esse não me deu vontade de assistir nao, mas adoro críticas em dobro, dá para saber diferentes pontos de vistas para uma mesma obra

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